"Porque eu não sou as coisas e me revolto. Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas e enérgicas, comprimidas há tanto tempo, perderam o sentido, apenas querem explodir"

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Agreste (ficção)


Prólogo

7 de fevereiro de 2013

Teus olhos formados de um castanho profundo como a noite... Teu olhar oblíquo porque cheio de nuances, nuances demais. Teu rosto talhado como se de madeira esperasse pelo entalhe. Duro, áspero, desconcertante. Tua face reveladora de segredos de outras faces. Que também são tuas. Teu cabelo fino cortado rente que passas entre tuas mãos acolhedoras. E contraditoriamente envolventes.

Tem algo se formando no espaço... E mistura cheiro de rosas com enxofre... Céu e inferno juntos num só lugar. Tem algo se formando no espaço entre nós... E mistura inocência e malícia de um jeito que só você pode fazer...

“Eu juro que te achava um anjo. Eu juro que havia encontrado o céu. Porém não quis ler teus sinais... Porém não quis ver que a tua face carrega outras faces. Mais uma vez cai ao ver que o mundo não é a extensão dos meus desejos... Mais uma vez, um anjo caído se apóia entre os meus braços. E me pede um abraço a mais. Cada vez mais fundo, cada vez mais preso, cada vez mais cego.”

“Desculpa, ta?” E um olhar doce escaneia todos os seus atos... “Tudo bem, relaxa cara”, a menina tenta responder, procurando não parecer nada além dela mesma. Mas nem mesmo a menina sabe, que há mais faces nela do que ela sequer concebia ver. Até aquele momento.

“Você é a mais sensata entre nós, garota, sem dúvida!”. Entre os anjos caídos, ela parecia a mais apta ao céu. Desde muito nova, já carregava um ar das coisas corretas e do que era o mais certo conceber e fazer. Era a “conselheira”, a sábia que levava alento aos corações desesperados do grupo... Aos corações encharcados de pecados... Sabia elevar os pensamentos e tirar do caminho sentimentos desconcertantes. Até aquela data. Em que sem ver entrou em um terreno que de luz passou a mostrar sombras e labirintos quebrados. Labirintos com cheiro de um perfume que embotava os sentidos.

“Conhece essas florezinhas? São lindas, porém muitos sensíveis ao toque, caem rápido... Lá em Campo Grande há florezinhas iguais a essa... Só que de muitas cores, havia amarelas, rosas, roxas, muitas cores mesmo sabe... Ai eu tive a ideia de fazer um buquezinho com todas as cores de florzinhas e levá-las pra Bel, minha namorada na época. Porém não deu muito certo...” Uma leve pontada despertou no meu peito: é, eu sei que o que é sensível demais se despetala. Escorre entre os dedos e cai...

Ele havia apostado tudo em um amor desesperado. Havia trocado de amores em busca de paz. E o que encontrou foi o caos, envolveu-se em sombras, em culpa marcada pelo afeto. Não aguentou o peso do céu. E caiu debilitado aos pés dela. Cheio dos seus próprios erros, cansado dos erros alheios, com um resto de raiva a consumi-lo, e louco pela desforra. E louco pra retomar o seu lugar entre os homens.

“Você está me enlaçando cara...” “Bem-vinda ao mundo da sacanagem...” E uma risada gostosa tomou conta do ar. Era a sua risada. Vinda da sua boca que sorria sereno pra mim e dizia “Não estou não, bonita”. Só me restava esperar. Porque você havia paralisado minha mente. Onde estava a sensatez? “Sabe, eu era uma pessoa íntegra!”, falava em torno de um sorriso. E os seus olhos brilharam antes de propagar uma risada ainda mais gostosa que todas as outras, enquanto eu me deliciava discretamente com o seu prazer... “Vai, continua!”. “Até que você veio, não sei de onde, completamente por acaso porque a gente nem poderia sequer se conhecer...” “E entrei na sua vida, na vida dela, na vida de vocês...” “E me produziu isso!” “Calma, não fica assim”... E me abraçava de um jeito manso, como se  a vida se resumisse a isso...

Nada havia acontecido... Porém acontecera tudo. Já havia traído. Já havia ultrapassado a linha, já havíamos entrado no caos.

Não volte atrás bichinho... Você já me enlaçou. Sou o gado que o sertanejo persegue por entre a caatinga cheia de espinhos. Sou o caminho enviesado do vaqueiro em busca de sua presa por entre os galhos do sequeiro. Você já me avistou, percorreu o agreste debaixo do sol, jogou a corda, me prendeu com um nó. Pra quê fugir agora?
  
“Sou muito boba né?” “É, você é boba... Vocês se parecem muito...” Tomou o ar sério da conversa. Ai era a hora de assumir uma das faces, a mais sensata: nós éramos muito amigos. Nos apoiamos sinceramente quando nosso mundo ruiu. A coincidência dos fatos nos fez viver um longo relacionamento, começar e terminar quase na mesma data, vivendo quase as mesmas dores, quase os mesmos medos, quase o mesmo céu e inferno. E o que começou de um jeito manso, passou a uma amizade que “me trouxe à luz de volta e me segurou quando eu caia”.

E repentinamente me envolveu em outras sombras, mais espessas, mais escuras, porém que traziam um ar tão forte...


“No puedo tomar café
Que el café me quita el sueño
Yo prefiero tomar té
Que tomando té me duermo

En la cama té tomé
Y tan dulce lo encontré
Que estaría toda la vida
Tomando té, tomando té, tomando té...”

3 comentários:

Kiko Andrade disse...

Belo texto, Mila. Você escreve muito bem!

Camila Lopes disse...

obrigada moço :)

Artur César disse...

excelente Camila! Parabéns pela inspiração