"Porque eu não sou as coisas e me revolto. Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas e enérgicas, comprimidas há tanto tempo, perderam o sentido, apenas querem explodir"

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

Sou um pano esgarçado no escuro

Estou aqui ainda, tentando entender qual a minha função no mundo,... . 

Enquanto a vida passa inexoravelmente através de mim e vai aos poucos me transformando em uma... sombra, 

do que um dia eu fui ou planejei ser. 


Estou aqui ainda. 

Viva ainda. 


Dependendo do dia, do humor e dos acontecimentos isso é considerado bom, ou ruim. 


Ou insuportável. 

Exatamente por isso que eu escrevo hoje. Antes que os sentimentos me assolem de um jeito impossível de reter angústia e dor. 


Já me disseram. Reescreva. Faz bem. Botar pra fora faz bem. Mas parece que não há mais inspiração...


Sabe? Parece tudo ralo. Resto. Não sei mais onde seguir a luz. Sou um pano esgarçado no escuro. Confortável, mas na sombra... O Sol não nasceu ainda. 




domingo, 27 de setembro de 2020

Fecho


As pessoas envelhecem. Eu envelheço e enlouqueço. Amadureço e me esqueço de te contar como era o meu começo. Como é meu endereço. Como vai ser o meu desfecho. Com isso tudo estabeleço, meço, remexo. Assim fora do eixo. Mas deixo. Porque você mesmo não é do meu feixe. Você é esmo. O mesmo. Por isso que eu envelheço. Mas não me esqueço do que deixo.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Sapoti

Falas suave, tens seus encantos. Sabe fruta doce que acalma o paladar? Es jambo!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Cerrado

Rasgo a pele em metal porque te sinto em nós imensos. Fractais estranhos frente ao corpo parco de imensidões. Tenho a ti como morada, estrada minha, estranho ninho de ilusões desencontradas. Estrados daquela cama em que deitaste, hastes de barraca em profusão de cuidados...
Malhados os sóis, os nós, os pós-encontros, feitos de luz e sombras incautas. Rebuscadas.

Porque es cerrado. Es o seco dos caminhos esparsados. Vossos. Teus. Nossos.
Que não sei se percebes ou não.




Navalha em metal

[março2017]

.

De repente a cidade de Valença toda apareceu pra mim como uma só imagem... 

Visão de pedaços dela que se mesclam e convergem como um vórtice, várias imagens ao mesmo tempo, vejo o rio que leva à cidade, as casas tristes, as casas belíssimas, a rodoviária e o povo manso, o comércio, o caminho pra casa dos seus pais, a casa dos pais do Alfredo, e vejo paredes turquesa, a sala onde vimos filmes e discutimos, o seu quarto, o seu pai solícito cuidando da comida, a mãe do Alfredo cozendo, os cães brincando, aquele início de tarde em que fazia um calor bem frio e nos sentamos na varanda pra ver o céu. 
Naquela varanda eu senti paz. 
Uma paz que tento percrustrar entre os meus dias de agora. Mas só o que vejo é a sensação de percepção distorcida do real. Como se eu estivesse tomando mescalina desde que tudo ruiu. Valença ainda aparece pra mim... Como se a cidade ainda estivesse independente aos fatos, imexível. 
Como se eu fosse voltar pra lá e estivesse tudo intacto. 
Como se nada tivesse acontecido. 
E eu me lembro como eu me sentia em casa na sua casa. Na sua cidade. Como o conto de fadas estava perfeitamente armado naquelas visões idílicas que hoje eu tenho agora como visões de uma bad trip.
Tem muita lama ainda pra sair




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Heranças do caos? Aghata e o lítio.
Ok.
Talvez tenham ficado heranças secundárias. Como o pano de chão que outrora foi cueca. Como as plantas que mesmo em outros vasos, seguem sendo o que foram e o que serão. Como as marcas na parede que trazem à lembrança um cãozinho que não está mais ao alcance dos olhos. Pedaços. Os potes de vidro, o café que não foi guardado ali por mim. Pedaços de algo que não me existia. E que agora subjazem, subsistem, bóiam nessa onda espumosa, vêm e vão conforme a maré. Estão sempre ali, à espreita. Com os seus olhinhos curiosos, esperando um só deslize, um olhar mais demorado e absorto, para despejar-me em mim uma avalanche de lembranças.

Esta não é a minha casa. Não tem cara de minha, não me respira, não me enlaça, não me representa. É um fantasma. Um grande limbo, uma grande espera, um imenso entre-lugar. Cada vazio fala mais que mil sentenças. Fala fundo no meu peito. Por saber o que faltava, o espaço me preenche. E pelo espaço ser vazio, ele me rouba o conforto do existir. Pois há um grande não-ser aqui dentro. Aquilo que não é me sufoca: paredes nuas, faltas, resquícios de presenças de coisas. O não-ser é grande a ponto de minguar qualquer existência nova. 
Buraco-negro. 
Falta.


quinta-feira, 21 de maio de 2015

Do crescimento: poeminha de criança - (ou cartinha de Facebook)




Toda a minha vida até hoje foi permeada por uma constante e repetitiva série de leves tapinhas na cara: do tipo acorda, olha a vida e caminha. Eu poderia ter escolhido todo o conforto do mundo. Eu poderia ter sido alistada pela vida prum trabalho que me fizesse ser uma menininha de chapinha no cabelo e carrinho do ano birrando pelo meu espaçozinho na terra, enquanto deixava a chupeta guardada discretamente no banco de trás... Mas toda vez que eu chegava perto disso meu Pai prontamente me colocava nos trilhos dele, e me mostrava o que era importante. Gosta de gastar e ter roupas de marca? Vou tirar o teu dinheiro. Acha que está confortável na carreira que escolheu? Vou te dar desafios e dificuldades. Põe seu raciocínio e inteligência acima de todas as coisas? Vou dar uma estragada no teu emocional pra que você entenda o que vale de verdade. E hoje aos poucos vou me convencendo do que li em algum lugar importante: tem o que comer? o que vestir? Um teto pra ficar? O resto é luxo.

(...com meu Pai, ter o que comer, o que vestir e onde inclinar a cabeça já era mais que o bastante. Pois ele não tinha nem essas três coisas. E era Deus na terra. Ensinando-nos o que é essencial.












Eu.


Eu já fui uma louca inveterada.
Eu já fui Lucrécia, já fui Ofélia.
Já fui o mais doce dos ódios,
o mais amargo das loucuras,
e o arabesco das ilusões.

Hoje sou um ponto no mar, uma forma no escuro,
um centro no mundo.
Na penumbra.

Esperando o Sol nascer.