[março2017]
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De repente
a cidade de Valença toda apareceu pra mim como uma só imagem...
Visão
de pedaços dela que se mesclam e convergem como um vórtice, várias imagens ao
mesmo tempo, vejo o rio que leva à cidade, as casas tristes, as casas
belíssimas, a rodoviária e o povo manso, o comércio, o caminho pra casa dos
seus pais, a casa dos pais do Alfredo, e vejo paredes turquesa, a sala onde
vimos filmes e discutimos, o seu quarto, o seu pai solícito cuidando da comida,
a mãe do Alfredo cozendo, os cães brincando, aquele início de tarde em que fazia um
calor bem frio e nos sentamos na varanda
pra ver o céu.
Naquela varanda eu senti paz.
Uma paz que tento percrustrar
entre os meus dias de agora. Mas só o que vejo é a sensação de percepção
distorcida do real. Como se eu estivesse tomando mescalina desde que tudo ruiu. Valença ainda aparece pra mim... Como se a cidade ainda estivesse
independente aos fatos, imexível.
Como se eu fosse voltar pra lá e estivesse
tudo intacto.
Como se nada tivesse acontecido.
E eu me lembro como eu me sentia em
casa na sua casa. Na sua cidade. Como o conto de fadas estava perfeitamente
armado naquelas visões idílicas que hoje eu tenho agora como visões de uma bad trip.
Tem muita
lama ainda pra sair
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Heranças do
caos? Aghata e o lítio.
Ok.
Talvez tenham ficado
heranças secundárias. Como o pano de chão que outrora foi cueca. Como as
plantas que mesmo em outros vasos, seguem sendo o que foram e o que serão. Como
as marcas na parede que trazem à lembrança um cãozinho que não está mais ao
alcance dos olhos. Pedaços. Os potes de vidro, o café que não foi guardado ali
por mim. Pedaços de algo que não me existia. E que agora subjazem, subsistem,
bóiam nessa onda espumosa, vêm e vão conforme a maré. Estão sempre ali, à
espreita. Com os seus olhinhos curiosos, esperando um só deslize, um olhar mais
demorado e absorto, para despejar-me em mim uma avalanche de lembranças.
Esta não é a minha
casa. Não tem cara de minha, não me respira, não me enlaça, não me representa.
É um fantasma. Um grande limbo, uma grande espera, um imenso entre-lugar. Cada
vazio fala mais que mil sentenças. Fala fundo no meu peito. Por saber o que
faltava, o espaço me preenche. E pelo espaço ser vazio, ele me rouba o conforto
do existir. Pois há um grande não-ser aqui dentro. Aquilo que não é me sufoca:
paredes nuas, faltas, resquícios de presenças de coisas. O não-ser é grande a
ponto de minguar qualquer existência nova.
Buraco-negro.
Falta.