Possibilidades furadas. Furacão de realidade enchendo minhas ventas com realidades novas. O que está jogado fora, o que poderia ter sido, e ao mesmo tempo o que será. Não me importo mais com acontecimentos fora do padrão. Já tenho meu trabalho, minha casa, meu bicho de estimação e minhas horas de paz. O que vier a partir daí é lucro. Fico às vezes chafurdando o passado: besteira minha. Nada é tão melhor quanto o hoje e suas condições sem intempéries. Só esperas. Só um futuro que pode ser muito. E que pode ser nada. Mas mal me importa; sou livre afinal depois de 28 anos de existência parca e tentando aplacar fora o que não estava presente dentro. Agora possuo a chave. Posso passar a vida a ler as obras que não li das minhas duas estantes empoeiradas. Posso descobrir um processo extraordinário e complexo de raciocínio que vai me levar a lugar quase nenhum e o dobro do meu salário. Posso me jogar da janela agora e acabar com tudo. Mas tenho preguiça das três coisas anteriores. Sinto-me pois numa antessala, aquele momento singular entre o fechar da porta e o guardar da chave. Indiferente. Insípido. E ao mesmo tempo completamente confortável. Principalmente com o frio que anda fazendo lá fora. Seis da manhã. E eu já desperta - milagre dos milagres! - a escrever esse texto. Somente eu e minha paz. Até o gato foi dormir. Só o que não dorme são meus pensamentos sobre o todo. Porém agora bem mais serenos, mais fluidos; não mais com as expectativas de encontrar algo perdido nos escombros da mente. Agora com a placidez mansa de quem possui um lugar. E outros lugares serão bem-vindos, mas não são mais necessários. Outros lugares podem somar; porém a ausência deles não diminui. Sou um ponto no Universo. Agora um ponto que não está a fim de se deslocar para conhecer o todo. Sou um ponto que encontrou sua rede e está agora vendo os acontecimentos. De fora. De dentro deles.
Balançando ao sabor do vácuo.
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
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