...
Ele é alto e tem as costas largas. O cabelo fino, as mãos grandes, o
olhar afiado. Sim, os olhos astutos e oblíquos como os de uma raposa. E se foi
assim feito fumaça... E voltou com asas chamuscadas. Porém com o mesmo ar de
sempre. Ele que começou tudo agora inicia esse texto... Ele que talvez se
reconheça em tom desconfiado de quem se esquiva do perigo alheio. Ele que podia
ter olhos mais doces se estes enxergassem um pouco mais... Ele que sorri pela
metade e desconcertado. Ele que é um profundo desconcerto para a vista. Ele que
me olha e não sei mais o que ele me vê. Afinal não sei pra onde ele olha...
...Ele tem os olhos doces de um castanho bonito... A pele alva e os
cabelos tão negros quanto as trevas... O olhar tímido, assustado e incerto, ao
mesmo tempo tão educado e tão selvagem de se olhar... Fingindo uma segurança
cega. Os atos delicados, o jeito de quem pede colo, o corpo largo, a segurança
nos gestos curtos. Pequenino. E forte em seu aconchego , acolhedor em seus braços
e sussurros instigantes. A doçura dos sentidos e a aspereza do metal, timidez e
palavras cortantes. Um vulcão escondido em um corpo de ferro...
...Ele é um caboclo capixaba. De pele quase negra, de olhos quase mel.
Sorriso lindo como estrelas, um céu muito azul é sua moldura. Sua inocência
misturada com malícia encantadora. Foi fulminante. Mãos que buscam, mãos que
descobrem... Mãos que nunca sentiram... O seu cheiro é doce... O momento
inicial tão belo, o balanço pendurado na árvore, o verde infinito e o Sol
forte, e seus olhos quase mel contrastando com seus lábios trêmulos... Pureza
no olhar, maldade nos olhos... Meu menino lindo... O final vazio com a baia
coberta de sol e o nosso abraço e minha cruz em sua testa... Fique com Deus e
seus bons pensamentos...
...Ele é um calango do cerrado. Do quente seco, lá onde ele veio. Ele
tem olhar curioso de criança pega de surpresa. Pequenino e forte. Forte e
franzino. Seu jeito puro me encanta. Seu suor prestativo me atrai. Sua
generosidade é grande, imensa. Quase sem sentido. Seu jeito tem cheiro de mato
e tabaco. Cheiro de tranqüilidade... De descansar sereno na sombra... Talvez
quem sabe? Seu hesitar me chama a atenção. E sei que eu o chamo a atenção também.
Eu o atraio com meu ar doce e minha vontade de ouvir... O que será...
...Ele é o malando JB! Sua voz grave me lembra gafieira e samba. Seu
jeito suburbano de quem no fundo não se importa tanto, seu discurso e suas
palavras infinitas, sua malemolência em ser, seu tsc tsc tsc tsc... Que tudo é
quebrado por seu sorriso bobo de criança alegre. Seu abraço, contatos e olhar
sacana de leve, bem de leve... Sua “levada na maciota”. Sua dança ajuntada corpo
com corpo. Seu jeitão sutil de “você quem sabe”. Sua sensibilidade traduzida em
versos, em beijos, em seu refinamento ainda bruto...
Ele...
Ele é negro e grandioso. Tem um olhar malicioso, porém de voz tão suave
de quem sabe o que quer. Suas tiradas sacanas, sua sensibilidade pueril, sua
esperança melancólica, suas ainda inseguranças juvenis... Ele está lendo meu
texto e agora sorri porque se reconhece nele... Sua delicadeza em me dizer
verdades, sua delicadeza em pontuar palavras, seu corpo quente em me instigar,
sua brisa leve a me levar pra longe... Uma esfinge que só observa meus passos, assim calmo, assim cauteloso... Ele...