"Porque eu não sou as coisas e me revolto. Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas e enérgicas, comprimidas há tanto tempo, perderam o sentido, apenas querem explodir"

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Rapha

(Sou muito feminino. Tenho uma feminilidade que transborda pelos poros e que se manifesta mesmo quando estou dormindo. Sou um homem feito moça. De uma beleza tão sutil e ao mesmo tempo tão escandalosa: um sorriso assim proibido nos meios mais conservadores. Cabelo fino e pele reluzente de quem cuida bem do corpo. Da própria sexualidade envolta em nós e em seduções irresistíveis. Que te atraem e te confundem em uma roda, em uma mistura de energias, de luz e sombra, de bendito e não-aceito: sou homem e sou mulher. E te chamo nas duas esferas ao mesmo tempo, pra somente uma dança, um contemplar acolhedor, um desejo assim envolto e satisfeito por si próprio em uma aura, plena e farta feito chocolate quente.)

Nada disso disseste com a boca. Mas demonstraste com os gestos, o caminhar, com os 3 meses que convivemos juntos, um pouco mais. Porque pareceu mais tempo: um ano, uma década, uma vida talvez? O que sei é que cresci muito; cresceste bastante também. Nos nós desencontrados, nos olhares cúmplices, nas palavras não ditas e plenamente entendidas. Nas risadas ensaiadas e verdadeiras. Nas lágrimas de redenção e de alívio. Nas perdas, nos ganhos, nas recusas: dormir ao lado de um homem que não tocou num fio do meu cabelo. Belo, talvez. Mais belo é quando te vejo desarmado e pleno de emoção pura. Mais belas são suas palavras ditas sem pensar, seu de repente desabrochar menino, moço, criança. Mais belo é seu corpo desencontrando desejos e inspirando cuidados. Meu bebê, meu aprendiz e professor, meu irmão mais irmão que muitos irmãos meus: todo o amor do mundo pra ti, a graça de Deus e a paz dos justos.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Vestíbulo

Possibilidades furadas. Furacão de realidade enchendo minhas ventas com realidades novas. O que está jogado fora, o que poderia ter sido, e ao mesmo tempo o que será. Não me importo mais com acontecimentos fora do padrão. Já tenho meu trabalho, minha casa, meu bicho de estimação e minhas horas de paz. O que vier a partir daí é lucro. Fico às vezes chafurdando o passado: besteira minha. Nada é tão melhor quanto o hoje e suas condições sem intempéries. Só esperas. Só um futuro que pode ser muito. E que pode ser nada. Mas mal me importa; sou livre afinal depois de 28 anos de existência parca e tentando aplacar fora o que não estava presente dentro. Agora possuo a chave. Posso passar a vida a ler as obras que não li das minhas duas estantes empoeiradas. Posso descobrir um processo extraordinário e complexo de raciocínio que vai me levar a lugar quase nenhum e o dobro do meu salário. Posso me jogar da janela agora e acabar com tudo. Mas tenho preguiça das três coisas anteriores. Sinto-me pois numa antessala, aquele momento singular entre o fechar da porta e o guardar da chave. Indiferente. Insípido. E ao mesmo tempo completamente confortável. Principalmente com o frio que anda fazendo lá fora. Seis da manhã. E eu já desperta - milagre dos milagres! - a escrever esse texto. Somente eu e minha paz. Até o gato foi dormir. Só o que não dorme são meus pensamentos sobre o todo. Porém agora bem mais serenos, mais fluidos; não mais com as expectativas de encontrar algo perdido nos escombros da mente. Agora com a placidez mansa de quem possui um lugar. E outros lugares serão bem-vindos, mas não são mais necessários. Outros lugares podem somar; porém a ausência deles não diminui. Sou um ponto no Universo. Agora um ponto que não está a fim de se deslocar para conhecer o todo. Sou um ponto que encontrou sua rede e está agora vendo os acontecimentos. De fora. De dentro deles.
Balançando ao sabor do vácuo.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Anjo negro


Ninguém consegue enxergar o próprio nariz. Ou então o enxerga demais. Eu com os meus defeitos e você com os seus problemas - todo mundo tem, todo mundo briga, todo mundo se defende. Aí começa uma discussão sem pé nem cabeça e nem pedido de desculpas de nenhum dos dois lados. Você se ofende. Com algo que eu nem te ataquei. Eu me ofendo. Com algo que nem deveria me ofender. A gente se mistura em agulhadas múltiplas mas vou ser sincera a você que no fundo o que eu queria era me misturar de novo, em outra faixa de realidade; naquela em que distâncias são pequenas pra aplacar o melhor que existe em nós.

quinta-feira, 6 de março de 2014

"Ser ou não ser: eis a questão"

Foi numa peça de teatro de Cássio Scapin que ouvi a frase, reverberada em um teatro do CCBB de Belo Horizonte. Dentro do contexto de uma história que narrava uma vida inteira - a vida da consagrada atriz Myrian Muniz - , a frase soou primeiramente estranha aos meus ouvidos: aquela estranheza que sentimos quando o familiar é levado a outros caminhos, ganha outros sentidos. E de repente o teatro inteiro levantou-se a repetir a frase, num momento lúdico e ao mesmo tempo profundo, denso. "Ser ou não ser, eis a questão". Repetir essa frase palavra - por - palavra... Com os olhos fechados... Minha mente acordou de um susto... E comecei a pensar em meus atos.




SER
OU
NÃO
SER?

... Pintar, correr, escrever, ler, dar aulas, perceber, dormir, acordar... O que define o ser...? O pensar, o agir? O quanto de agir que define o "ser"? Ser ou não ser... Pergunta que me faço todos os dias ao acordar. Sem perceber. Sem sequer crer que meus atos me dão existência. E todos os dias escolho ser ou não ser afinal. Todos escolhem.

É estritamente necessário então escolher. É fazer pra ver. É a essência que precisa sair. Pra se manter e não se desmanchar. Pra Ser.

A alma imoral


"Melhor a traição do que a fidelidade mentirosa - Aquele que engana a si mesmo é mais perverso do que o que engana os outros. Há traições pela fidelidade muito mais violentas do que pelas transgressões. A fidelidade hipócrita é um compromisso com o passado que obstrui o presente e o futuro. Melhor o traidor que o hipócrita."