"Porque eu não sou as coisas e me revolto. Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas e enérgicas, comprimidas há tanto tempo, perderam o sentido, apenas querem explodir"

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Agreste (ficção) cap 1


Capítulo 1

24 de abril de 2013

_ Deve haver alguma punição no inferno para o que você está fazendo agora... Buscando o silêncio de uma igreja para escrever suas obscenidades... Tem sorte de Deus não enviar um raio pra te fulminar nesse momento...

(Risos) _ Só estou esperando o museu abrir. Assim estarei mais a vontade para escrever. E em parte, Deus e sua moral são responsáveis pela minha escrita... Se não tivesse transformado a minha doce realidade em meras palavras, eu não estaria aqui...

Hoje o que me resta é escrever... Escrever para lembrar, relembrar para escrever, um círculo perpétuo... Pra manter um pouquinho do que você me criou... Não há passagens, fatos tão fortes como os nossos que não consigam deixar um rastro. E quanto a escrita foge, é do teu cheiro que lembro... É sempre na realidade que me agarro. É sempre a partir do que foi. Surpreso ficarás quando veres que a escrita mostra o que a realidade me fez... Surpreso por ver o quanto me atingiu... E o quanto me restou de ti. Às vezes, quase nada, às vezes muito, às vezes pouco. Mas sempre algo. Sempre uma tentativa de captar o ar, o cheiro, um desesperado intento de te guardar no papel...

Ah...! Se os anjos soubessem o que é o céu dos sentidos... Não se negariam a um gole desse entorpecimento divido...

Eu prefiro a dor do mundo e o céu das tuas cores quando fazemos sexo. Prefiro o teu jeito ao meu julgamento. Prefiro o fato à ideia, prefiro tua pele à escrita... Então por que hoje eu somente escrevo? Talvez para unir os dois num só. Talvez por comedimento meu. Que me condenou à moral do que é certo... Talvez minha queda ao seguir o Deus dos homens...

Ah! Porque o Deus de verdade não nos pode negar isso... O mundo foi feito para nós... Por nós... Aquele quarto é nosso, ainda... As noites insones, nossos corpos unidos em um prazer inimaginável... Nós... Teu olhar amoroso e cínico que me acompanha a cada gesto. Você e sua face dura de um jeito tão doce de ser... A vida rodando em meus sentidos, nós ali, enrolados naqueles sentimentos todos. Nós desencontrados.

"Eu sou o teu vaqueiro! Sou teu homem de verdade que te come!"

Eu sou a luz dos teus olhos... Sou a esperança de uma realidade melhor... Sou o seu abrir de sentidos...




(continua)

2 comentários:

Artur César disse...

nossa, excelente, excelente, excelente, assim já de cara pra um primeiro capitulo, que impeto, ahhhhhh quanto tempo não leio algo tão lindo e impressionante assim, escrito por uma mulher! AMEI!

TEU FÃ
Artur César!!

Leo disse...

Homem de verdade?, que não carrega sua espada, vira poeira..