Ah! a confiança é um arraso de normas e atitudes desencontradas quando gostamos de alguém... Dar um nó cego na alma e se jogar a quem não conhecemos senão pelo lado de fora é algo digno dos fortes. Por isso as quedas são grandes e dignas de um calmante tomado antes de dormir.
Mas ai a pergunta que me faço, depois de tantos laços desatados e noites insones, é se realmente devemos nos preocupar tanto assim. Porque diferente de um muro em que nos jogamos e nós mesmos medimos o salto e somos responsáveis por ele, no caso do outro há sempre o outro como metade da história. O outro que vamos conhecendo aos poucos e que nos vai mostrando a distância do muro a cada encontro, a cada palavra, a cada gesto. Só que ai já nos jogamos a ele antes de medir o tombo - e se a distância for grande demais? - e vamos vendo no meio do esforço físico do salto se caímos ou nos agarramos... É, é arriscar-se viu...
Mas será que vale tanto sofrimento? Se não alcançamos o muro caímos no vão, podemos nos machucar, quebrar algo: por isso o cálculo preciso antes de saltar. E a noção da própria responsabilidade. Porém, e se o muro é o outro? E se achamos que a distância é curta e durante o salto ela se mostra infinita? Muitas vezes é fácil, outras é tão difícil prever. E diferente das lesões físicas, os golpes na alma podem ser muito maiores e tardarem a sarar. Entretanto, sigo perguntando: será que vale tanto sofrimento?
Porque se não temos o tudo nas mãos - e nem se saltamos o muro real temos - o sofrimento para além da desilusão é desnecessário. Somos só uma parte do todo, somente uma parte da fé. Não há garantias; se não há como prever a queda, por que chorar pelo tombo? Se não há como prever a dor, por que se sentir culpado? Não está inteiramente nas nossas mãos; não vemos a distância do muro. É ter a mente alerta, a previsão cega e o coração pronto.
Mais belo e mais fácil - e mais coerente - é viajar livremente por entre esse mar de sentimentos nossos e alheios... É voar de forma esvoaçante por entre a distância do ponto ao muro... E se agarrarmos, tanto bom; se cairmos, nossas asas não nos deixarão tocar o vão... E vamos seguindo, leves, em busca de outras distâncias, grandes, pequenas... Sem medo. Sem culpa. Sem a sensação de angústia que precede e que procede da dor. Sentindo vivamente a dor e a delícia de conhecer o outro.
Criemos asas! Pra voar e beijar umas flores por aí. E pra explorar certas distâncias, em busca de um muro que nos livre do chão. E nos faça subir.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
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