"Porque eu não sou as coisas e me revolto. Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas e enérgicas, comprimidas há tanto tempo, perderam o sentido, apenas querem explodir"

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Criação




 Vou escrever mesmo que os muros de Jericó me caiam nos ombros.


Você abriu a minha pele, rasgou a minha carne, expôs meu nervo exposto à vista dos chacais. Mesmo assim sobrevivi; transformei o meu fogo em cinzas que passei no meu rosto pra demonstrar meu luto. Teu olhar com o tempo ficou turvo, com o tempo nem me lembro mais da sua cor de olhos de gato. Nem me lembro mais da tua face disfarçadamente indecorosa. Maliciosa de um jeito tão sutil quanto selvagem. Escárnio à flor da pele. Incandescente como as labaredas dos teus olhos. 

Mas não estou aqui pra falar de ti.

Estou aqui pra lhes dizer o quanto me feriu, e o quanto eu morri. Entretanto, estou aqui para dizer que apesar da cicatriz ainda em carne viva, eu sobrevivi. E hoje, minha criação floresce em flores tropicais violentas, em animais indomesticáveis, pelo tempo ou pela falta de afeto. Tenho meus vapores ácidos de volta, manchei de piche o vestido branco em que me meti. E descobri as outras tantas outras cores do universo. Enxergar demais? Demais pros outros; pra mim é o natural. Penso, crio, sinto, escrevo, existo com a naturalidade dos primeiros no Jardim do Éden. Sem a culpa; com a pureza dos gestos refletindo na falta de vestidos. A forma em que me meteste, desta sai. O modelo em que me puseste, este rasguei em mil pedaços. O tom monocromático que esperavas de mim, este joguei fora, pois minha canção é feita de tantas cores como um arco-íris no céu: minha esperança não é engarrafada. É solta como o vento e como a brisa. Não possui regras, como a paz; não possui medo, como o amor.  Não possui fronteiras. Igualzinho como Deus.


Porque qualquer escravidão caiu por terra depois que te perdi. E foi assim que me achei.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Admirável mundo em ruínas - 1

O que estamos fazendo conosco?

    Sei que parecerá daqueles textos "mais do mesmo". Porém ainda não escrevi o meu debaixo desse tema... A gana de escrever veio num olhar simples ao ver os preços dos livros didáticos do novo ano, estampados com inútil inocência na vitrine - pelo menos 3 vezes mais caros do que quando eu estudava. E me veio à mente: "Será que ninguém vê que estamos num sistema doentio? Insustentável? Que não conseguimos consumir tanto? Que não conseguimos consumir esse tudo há muito tempo?" 
    Ou as pessoas vivem fazendo suas dívidas impagáveis, ou vivem sustentando uma realidade que não tem existência prática. E então me vi numa dúvida daquelas bem ontológicas: estarão cegos ou fingirão muito bem? Porque todos estão na mesma roda... E não vejo quem haja conseguido escapar por completo. Pergunto-me se sequer há aqueles que abriram os olhos. O que vejo até o momento são cegos - guiando cegos menores, crianças que já desde cedo entram nessa roda irresistível de "lojas, consumo, livros, instrução, sucesso"... Colégios caríssimos... Livros ainda mais. Livrarias cobrando caro por auto-ajudas de "como obter sucesso". Ou você é bem-sucedido e consegue estudar naquele colégio bacana - e comprar aquele livro bacana de coaching de "como obter sucesso", ou você não é nada. E morra tentando. E consuma e consuma e tenha - como um substitutivo tão sedutor do ser. Ninguém quer olhar pra dentro. Ninguém quer ver seus próprios podres. Só é necessário parecer? Só é necessário engolir essa água com açúcar que tenta cada vez mais consolar o inconsolável? E dá-lhe mais livros de auto-ajuda. E dá-lhe mais novidades para os seres ávidos de "conhecimento" e vazios de "conteúdo".
    Tenho medo e pena das gerações que virão. Na verdade já o tenho das que estão ai, tentando seu sucesso na vida à custa da própria vida. Sendo o que não são. Tentando ser o que nunca serão. Fingindo ser o que todos querem ser. E sendo o quê? Não o sendo. Querendo tanto fazer seu papel no mundo e virando buracos-negros de informação. Vazios ambulantes. "Homens de sucesso" no seu carro importado. O orgulho da família traduzido em pílulas pra dormir. Zumbis por escolha própria. E ainda há de ser belo, há de ser magro, há de ser sempre jovem... Mas essa parte fica pra próxima...