Vou escrever mesmo que os muros de Jericó me caiam nos ombros.
Você abriu a minha pele, rasgou a minha carne, expôs meu nervo exposto à vista dos chacais. Mesmo assim sobrevivi; transformei o meu fogo em cinzas que passei no meu rosto pra demonstrar meu luto. Teu olhar com o tempo ficou turvo, com o tempo nem me lembro mais da sua cor de olhos de gato. Nem me lembro mais da tua face disfarçadamente indecorosa. Maliciosa de um jeito tão sutil quanto selvagem. Escárnio à flor da pele. Incandescente como as labaredas dos teus olhos.
Mas não estou aqui pra falar de ti.
Estou aqui pra lhes dizer o quanto me feriu, e o quanto eu morri. Entretanto, estou aqui para dizer que apesar da cicatriz ainda em carne viva, eu sobrevivi. E hoje, minha criação floresce em flores tropicais violentas, em animais indomesticáveis, pelo tempo ou pela falta de afeto. Tenho meus vapores ácidos de volta, manchei de piche o vestido branco em que me meti. E descobri as outras tantas outras cores do universo. Enxergar demais? Demais pros outros; pra mim é o natural. Penso, crio, sinto, escrevo, existo com a naturalidade dos primeiros no Jardim do Éden. Sem a culpa; com a pureza dos gestos refletindo na falta de vestidos. A forma em que me meteste, desta sai. O modelo em que me puseste, este rasguei em mil pedaços. O tom monocromático que esperavas de mim, este joguei fora, pois minha canção é feita de tantas cores como um arco-íris no céu: minha esperança não é engarrafada. É solta como o vento e como a brisa. Não possui regras, como a paz; não possui medo, como o amor. Não possui fronteiras. Igualzinho como Deus.
Porque qualquer escravidão caiu por terra depois que te perdi. E foi assim que me achei.

