"Porque eu não sou as coisas e me revolto. Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas e enérgicas, comprimidas há tanto tempo, perderam o sentido, apenas querem explodir"

terça-feira, 31 de março de 2015

Do corpo

Vagarosamente tiro as roupas e fico nua diante do espelho... Com um certo pudor, com uma certa vergonha. Olho nos olhos primeiro antes de olhar o resto do corpo... Meu corpo. Tão frágil, tão forte. Tão passageiro quanto real, palpável, presente. Está ali, diante da minha face, me mostrando o que é: sem máscaras, medo, orgulho ou vaidade. Somente um corpo necessitando de cuidado. E de repente me vem um amor sabe? Observo cada parte do meu corpo com aquele carinho que os pais tem com os filhos: mesmo corruptível, meu corpo é algo que foi feito pra eu cuidar.

Olho meu corpo no espelho e fico pensando o quanto já fiz a ele: de bom, de ruim...Meu corpo gostou do Parkour, foi se modelando aos poucos em cada treino. Hoje já não é o que era, porém está ainda num processo pra ser... Detalho o olhar em cada parte diferente; em cada parte nova; em cada parte a ser trabalhada. Meu corpo... Olho pra ele não com desejo ou lascívia, antes com inocente curiosidade: de que forma será que ele sente? Como será que ele pensa? Que vontades ele esconde? Que vontades ele esconde de sua alma... E de repente sinto pena... Muita pena traduzida em afeto... Pena de um corpo que nunca soube direito pra que veio, que sempre se enlaçou em outros corpos sem entender a profundidade das coisas... Que nunca se viu como veículo e porta de entrada de sua própria alma, de acesso ao seu próprio ser...

E então eu vejo. E entendo: o quanto de cuidado lhe é necessário. Embora indomável, de vontade própria, aceso e impaciente, meu corpo é sim digno pra eu cuidar. Sim, também é uma parte sagrada minha: aquilo que me entra, me invade, me envenena ou me alenta entra pelo corpo. Sendo pois a morada do meus tesouros, é também em si precioso. 

Sentindo meu corpo como parte minha, realmente minha, o enxergo diferente: mais que belo, lindíssimo. Mais que adequado, perfeito. E ao mesmo tempo tão comum - o mais natural que se pode ser. Porém que guarda o mais essencial que se pode conceber.  E sinto um amor incomensurável por ele, uma candura tão grande e uma vontade tão grande de abraçá-lo e enlaçá-lo em mim que o meu desejo se converte em guardá-lo a sete chaves... Como um bem único, intransferível. E assim esperar - sem pressa, sem angústia, sem nem fazer ideia de quem nem quando - assim esperar... Na penumbra dos dias e na sombra das roupas, por aquele que irá desnudá-lo, assim suave, trêmulo e inseguro, no princípio, e fazer eternidade com a passagem das horas...


"Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas, vejamos se florescem as vides, se já aparecem as tenras uvas, se já brotam as romãzeiras; ali te darei os meus amores"

Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas, vejamos se florescem as vides, se já aparecem as tenras uvas, se já brotam as romãzeiras; ali te darei os meus amores.

Cânticos 7:12
Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas, vejamos se florescem as vides, se já aparecem as tenras uvas, se já brotam as romãzeiras; ali te darei os meus amores.

Cânticos 7:12
Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas, vejamos se florescem as vides, se já aparecem as tenras uvas, se já brotam as romãzeiras; ali te darei os meus amores.

Cânticos 7:12
Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas, vejamos se florescem as vides, se já aparecem as tenras uvas, se já brotam as romãzeiras; ali te darei os meus amores.

Cânticos 7:12
Levantemo-nos de manhã para ir às vinhas, vejamos se florescem as vides, se já aparecem as tenras uvas, se já brotam as romãzeiras; ali te darei os meus amores.

Cânticos 7:

segunda-feira, 23 de março de 2015

Do amor


Cami, Cam, Mila, Camila: tantos nomes numa pessoa só. E tantos caminhos pra cuidar. 

Do amor: ele desabrocha em inúmeras funções na minha vida. Mãe de gato e rapaz quase feito, organizadora da casa, organizadora do Parkour Niterói, organizadora dos projetos da escola, do Ninho das Águias, da minha vida então. Tanta coisa... Que eu nem sei se ando dando conta. Vida em abundância gostosa como amor fresco, amor à flor da pele. Daqueles doces ainda moles de recém-feitos. Do amor; que anda escorrendo de cada coisa que eu faço. De cada gesto que eu enlaço em fita rosa. Do amor que derramo em olhares, sorrisos, dedicações de corpo, alma e espírito... Talvez o amor seja isso. Talvez seja só isso: o poder e satisfação pela criação das coisas.

É Deus quem me sustenta. E se ele é amor, é o amor que me sustenta. E se é o amor que me sustenta, é o mesmo que sustenta meus projetos, anseios, visões, minha vida em tantas faces novas e encontradas: é o amor da criação, do ver germinar, desabrochar em mil, em tons, em sons tão belos como a própria existência... Nascer, multiplicar-me infinitamente: crescer enfim. E aparentar ainda mais do que achei que poderia ser um dia.

Muitos projetos. Muita superação. Cada dia por vez. Agenda cheia, coração pleno. Mesmo nos dias vazios um mundo inteiro a explorar. Espiritualmente. Pra fora, mas principalmente também pra dentro, aprofundando o olhar das coisas. O olhar das perspectivas. E fortalecendo as fraquezas. 

O coração cada vez mais vivo. Em cuidado, como nunca esteve na vida.  Protegido e sorvendo do que o amor tem de melhor. E descansando e exercitando e aprendendo a ser. De verdade. 

Amado. De verdade amado como nunca tive a ousadia de ser.

Calor gostoso no peito. Ardor que arde e que refresca como brisa certeira. É a tua presença que me basta. E que me tem feito ser tantas outras coisas... O cuidado de ver o que está sendo criado... E ser um pouquinho de toda essa criação... E ver o quanto tudo é bom...






terça-feira, 3 de março de 2015

Brisa suave




Acho que este é um daqueles momentos da vida em que se sente como em uma rede, vendo o sol morno bater enquanto calmamente você existe em volta do todo. Ou como em um barco curtindo as coisas da calmaria - não necessariamente mortal, mais necessariamente inspiradora. Escrevo então com a displicência de quem somente observa o tempo passar. Assim como a brisa suave que não te tira do lugar onde está... Somente existe ali pra te lembrar como se ocupa um espaço. Assim calmo, assim suave, assim espera do que nem sei. Porém não espera daquilo que espero, não espero nada e recebo tudo com meus olhos moles de preguiça. Tanto o sol que se encosta calmo na tarde quanto as lembranças que já não importam mais. Presente. Dá pra meditar sem transcender; é só respirar ao sabor da passagem das coisas e assim, calmamente, apreciar o quilate do céu azul cor de luz do sol.