Havia uma flecha transpassada no seu peito. Que quanto mais mexia mais produzia dor, e doía sempre que respirava. Longa, de ponta afiada, a manchar de sangue tantas esperanças e sentimentos... Era tão belo, tão claro, tão acolhedor... De uma hora para outra ela se via caindo em um vão escuro: onde estavam as asas que a carregavam para o céu? De uma hora a outra os elogios se converteram em xingamentos, o orgulho em vergonha, o amor em raiva, a vida em morte: lhe arrancaram tudo de modo muito súbito, muito rápido, muito desesperador. "Você... Por que você?"
Porque ela não percebeu os seus sinais... O seu olhar era oblíquo sim... O seu sorriso não era só de prazer, mas também de dor... Anjo e demônio, assim como ela... As duas sombras se tocaram e acabou-se a luz. Extinguiu-se o ar. Desesperou-se a vida.
A angústia seguiu o dia inteiro, consumindo, espreitando, intoxicando os sorrisos... Como um vazio de alma.
Entretanto, contrariando todas as expectativas, ela saiu de casa e não se jogou ao caos: teve um dia longo, cheio de atividades que afastaram por um pequeno tempo suas dores. A vida começou a sair da escuridão e se mostrar... "Eu sou mais forte..." Mais forte que a dor, mais forte que o medo, mais forte que a morte que a vigiava: ela então sobreviveu.
E o que viu hoje, depois de um dia inteiro de provas, foi um pequenino porém constante despertar dos sentidos, como um discreto sopro de vida. A ousadia, a sensualidade da alma, a presença, a luz dos olhos... Onde estava tudo isso desde então...? Tudo que parecia ter sido dado de presente a ela e que se estava esvaindo...? E começou a descobrir finalmente o que precisava descobrir pra seguir de qualquer forma, de qualquer jeito: o brilho, o brilho vinha dela.
A alegria que a acompanhou no início do ano era dela, e somente dela. Ele havia despertado uma alma que não o pertencia... E então a ficha dourada caiu suavemente e fez um ligeiro tilintar no estômago: só dependia dela redespertar-se. E ninguém mais poderia fazer isso novamente...
E assim está ela, a buscar dentro de si um facho de luz independente de qualquer outro... e renascer, novamente, novamente, novamente...
A flecha ainda está lá... Mas começa a apagar-se, apagar-se, e apagar-se...
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2 comentários:
UAUUUUUUUUU, que delicia ler isso, estava mesmo precisando ler algo assim nesta madrugada, obrigado !
Artur César
neste 18/04/2013
04:19am
de nada :)
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