(Sou muito feminino. Tenho uma feminilidade que transborda pelos poros e que se manifesta mesmo quando estou dormindo. Sou um homem feito moça. De uma beleza tão sutil e ao mesmo tempo tão escandalosa: um sorriso assim proibido nos meios mais conservadores. Cabelo fino e pele reluzente de quem cuida bem do corpo. Da própria sexualidade envolta em nós e em seduções irresistíveis. Que te atraem e te confundem em uma roda, em uma mistura de energias, de luz e sombra, de bendito e não-aceito: sou homem e sou mulher. E te chamo nas duas esferas ao mesmo tempo, pra somente uma dança, um contemplar acolhedor, um desejo assim envolto e satisfeito por si próprio em uma aura, plena e farta feito chocolate quente.)
Nada disso disseste com a boca. Mas demonstraste com os gestos, o caminhar, com os 3 meses que convivemos juntos, um pouco mais. Porque pareceu mais tempo: um ano, uma década, uma vida talvez? O que sei é que cresci muito; cresceste bastante também. Nos nós desencontrados, nos olhares cúmplices, nas palavras não ditas e plenamente entendidas. Nas risadas ensaiadas e verdadeiras. Nas lágrimas de redenção e de alívio. Nas perdas, nos ganhos, nas recusas: dormir ao lado de um homem que não tocou num fio do meu cabelo. Belo, talvez. Mais belo é quando te vejo desarmado e pleno de emoção pura. Mais belas são suas palavras ditas sem pensar, seu de repente desabrochar menino, moço, criança. Mais belo é seu corpo desencontrando desejos e inspirando cuidados. Meu bebê, meu aprendiz e professor, meu irmão mais irmão que muitos irmãos meus: todo o amor do mundo pra ti, a graça de Deus e a paz dos justos.
