Acordei hoje pensando em quanto tempo perdi e quantos amigos já foram embora... Quantas oportunidades deixei passar por um motivo que não sei ainda qual. O quanto não luto e o quanto as coisas passam por mim feito areia entre os dedos... O quanto de vida que ainda tenho. E o quanto já desperdicei. O quanto não fiz, e o quanto não vivi. O que sempre me perseguiu continua me perseguindo. A parte de copo vazia, que me achata e me impede de voar.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Tudo ou nada
Estou cansada de pensar na melhor coisa antes de escrever... Aliás, estou cansada da perfeição a corroer meus ossos, a pensar que cada texto mal-pensado é odioso, da imperfeição que existe e que passa na minha cabeça como algo anômalo, que não deveria existir. Mas existe. Somos todos imperfeitos, incompletos, essa corja de seres que anda por aí e acha que precisa ser o melhor... Mas nunca somos os melhores... Somos mais um.
E o que nos diferencia então? O que nos faz diferentes, destaque perante os outros, na multidão? Os títulos que temos? A forma como escrevemos, o brilho que somos? Somos todos pó de estrela... Somos todos uma centelha de Deus, da luz divina... Somos todos tudo, e somos todos nada. Tudo ou nada é o que vivo nos meus tenros anos. Ou sou a cereja do bolo, a grande genial divina da vida, ou não sou nem mesmo o resto de lixo da calçada. Isso é um problema. Porque o que sou caminha na corda bamba daquilo que se julga perfeito (por que perfeito é?). Um passo em falso e estou no abismo. No abismo do eterno desconhecimento próprio.
...
Eu mesma me saboto. Porque não há os dois extremos - talvez haja no nascimento e morte; a não ser que não testemunhemos isso. Mas se testemunharmos, vamos por fim descobrir a sensação do extremo. O total preenchimento do ser que faz de uma vida ser perfeita não foi experimentado nem pelos poetas. Aqueles que podiam apreender a plenitude nas palavras. Mas uma plenitude que passa, que só existe no limiar da leitura, que desmancha das mãos quando fechamos o livro. Pó de estrela, centelha divina... Nem essas são a perfeição do ser.
Se estamos entre o grande espaço do "tudo" ou "nada", me expliquem então porque a grande gente arrisca todas as fichas nesse "tudo" e teme tanto esse "nada"? "Até os melhores homens vivem nessa correria" dizia uma voz amiga. Será que nos achamos tão pouco, que queremos buscar esse "tudo" sem nem saber o que é ou como é, ou mesmo se existe? Será que nos sentimos tão nada que somente o "tudo" nos satisfaz? Cada vez mais prazer, cada vez mais busca, cada vez mais topos. E quantos topos precisaremos inventar pra aplacar de vez a nossa sanha por cada vez mais? E quantos topos precisaremos inventar como um pretexto para subir mais? E pra que subir mais?
Temos que estar conosco todo o tempo. O foco no topo? E o foco em nós? E o foco na vida, na respiração, nos sentidos... E o foco do amor que não foi perfeito mas que foi feito, foi sentido, foi consumado? Prefiro a indiferença das coisas sem "sentido" e com "sentidos". Porque o objetivo incansável de uma meta esvazia todo resto. Aquilo que passa torto é o que existe. Prefiro a incompletude da mente e da existência. Porque ela é o único de real que temos por aqui. Quer completude? Por que não experimentar então a morte, que por si mesma é derradeira e extrema? Prefiro a vida.
Prefiro caminhar no longo espaço que existe entre o tudo e o nada. Assim posso sentir os sabores e os dissabores do que é ser eu. Bem, a gente sabe o que é ser a gente quando tira o foco de um desejo mais concreto. Não somos concretos. Nem mesmo uma flecha ao alvo: nós somos a realidade toda em volta, que contempla tudo com a sábia indiferença de que sabe o que faz.
E assim caminhar na praia ou na calçada ou na terra sabendo que este corpo que eu carrego é único ser, apesar de imperfeito. Saber que é puro ser, e é isso que nos faz livres e belos e bons e únicos: não somos o todo, mas tanto somos. E somos somente nós.
Não sou completa. Plena sou.
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