"Porque eu não sou as coisas e me revolto. Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas e enérgicas, comprimidas há tanto tempo, perderam o sentido, apenas querem explodir"

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Navalha em metal

[março2017]

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De repente a cidade de Valença toda apareceu pra mim como uma só imagem... 

Visão de pedaços dela que se mesclam e convergem como um vórtice, várias imagens ao mesmo tempo, vejo o rio que leva à cidade, as casas tristes, as casas belíssimas, a rodoviária e o povo manso, o comércio, o caminho pra casa dos seus pais, a casa dos pais do Alfredo, e vejo paredes turquesa, a sala onde vimos filmes e discutimos, o seu quarto, o seu pai solícito cuidando da comida, a mãe do Alfredo cozendo, os cães brincando, aquele início de tarde em que fazia um calor bem frio e nos sentamos na varanda pra ver o céu. 
Naquela varanda eu senti paz. 
Uma paz que tento percrustrar entre os meus dias de agora. Mas só o que vejo é a sensação de percepção distorcida do real. Como se eu estivesse tomando mescalina desde que tudo ruiu. Valença ainda aparece pra mim... Como se a cidade ainda estivesse independente aos fatos, imexível. 
Como se eu fosse voltar pra lá e estivesse tudo intacto. 
Como se nada tivesse acontecido. 
E eu me lembro como eu me sentia em casa na sua casa. Na sua cidade. Como o conto de fadas estava perfeitamente armado naquelas visões idílicas que hoje eu tenho agora como visões de uma bad trip.
Tem muita lama ainda pra sair




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Heranças do caos? Aghata e o lítio.
Ok.
Talvez tenham ficado heranças secundárias. Como o pano de chão que outrora foi cueca. Como as plantas que mesmo em outros vasos, seguem sendo o que foram e o que serão. Como as marcas na parede que trazem à lembrança um cãozinho que não está mais ao alcance dos olhos. Pedaços. Os potes de vidro, o café que não foi guardado ali por mim. Pedaços de algo que não me existia. E que agora subjazem, subsistem, bóiam nessa onda espumosa, vêm e vão conforme a maré. Estão sempre ali, à espreita. Com os seus olhinhos curiosos, esperando um só deslize, um olhar mais demorado e absorto, para despejar-me em mim uma avalanche de lembranças.

Esta não é a minha casa. Não tem cara de minha, não me respira, não me enlaça, não me representa. É um fantasma. Um grande limbo, uma grande espera, um imenso entre-lugar. Cada vazio fala mais que mil sentenças. Fala fundo no meu peito. Por saber o que faltava, o espaço me preenche. E pelo espaço ser vazio, ele me rouba o conforto do existir. Pois há um grande não-ser aqui dentro. Aquilo que não é me sufoca: paredes nuas, faltas, resquícios de presenças de coisas. O não-ser é grande a ponto de minguar qualquer existência nova. 
Buraco-negro. 
Falta.


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