"Porque eu não sou as coisas e me revolto. Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas e enérgicas, comprimidas há tanto tempo, perderam o sentido, apenas querem explodir"

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Saco vazio pára em pé

*Texto de 12/08/2013

Sou um saco vazio. Cheio de aranhões, escaras, hematomas e cheio de poeira. Porém vazio. Livre do câncer que me tomava. Porque saco vazio pára em pé. Porque só resta o que me faz caminhar. Porque o vazio do saco de estopa pertence a mim. Porque precisa esvaziar-se para em vez de encher de fel deixar o mel escorrer na boca alheia. Porque ora, porque sim. Porque o vazio não é de coisa. Coira ruim era o que o enchia. Porque o vazio agora é o de possibilidades. É de florescer, esse vazio. Porque enfim cansei de me justificar.

Saco vazio pára em pé. Algo que estava nele foi o que me fez adormecer. Algo nele me fez penar. Sinto falta da vida que levava. Sinto falta do saco preenchido com algo mais. Algo doce pra me empanturrar. No fundo mesmo, o saco estava cheio de vazio. 

E esse vazio pesava. Pesava como se cheio fosse. E pesava mal, de modo ruim, mole e preguiçoso como chumbo. E desse cheio-vazio, só me restou o pó. Nada restou. Porque o saco cheio estava cheio de vazio. E ainda um vazio de fel e com gosto de café!

E hoje, o que dizer? Hoje o saco vazio está vazio, porém o cheio não é mais o vazio que me fazia parte. Hoje o saco vazio está de pé. Porque o vazio está cheio, só que de fé.

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