"Porque eu não sou as coisas e me revolto. Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas e enérgicas, comprimidas há tanto tempo, perderam o sentido, apenas querem explodir"

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Ele

...
Ele é alto e tem as costas largas. O cabelo fino, as mãos grandes, o olhar afiado. Sim, os olhos astutos e oblíquos como os de uma raposa. E se foi assim feito fumaça... E voltou com asas chamuscadas. Porém com o mesmo ar de sempre. Ele que começou tudo agora inicia esse texto... Ele que talvez se reconheça em tom desconfiado de quem se esquiva do perigo alheio. Ele que podia ter olhos mais doces se estes enxergassem um pouco mais... Ele que sorri pela metade e desconcertado. Ele que é um profundo desconcerto para a vista. Ele que me olha e não sei mais o que ele me vê. Afinal não sei pra onde ele olha...

...Ele tem os olhos doces de um castanho bonito... A pele alva e os cabelos tão negros quanto as trevas... O olhar tímido, assustado e incerto, ao mesmo tempo tão educado e tão selvagem de se olhar... Fingindo uma segurança cega. Os atos delicados, o jeito de quem pede colo, o corpo largo, a segurança nos gestos curtos. Pequenino. E forte em seu aconchego , acolhedor em seus braços e sussurros instigantes. A doçura dos sentidos e a aspereza do metal, timidez e palavras cortantes. Um vulcão escondido em um corpo de ferro...

...Ele é um caboclo capixaba. De pele quase negra, de olhos quase mel. Sorriso lindo como estrelas, um céu muito azul é sua moldura. Sua inocência misturada com malícia encantadora. Foi fulminante. Mãos que buscam, mãos que descobrem... Mãos que nunca sentiram... O seu cheiro é doce... O momento inicial tão belo, o balanço pendurado na árvore, o verde infinito e o Sol forte, e seus olhos quase mel contrastando com seus lábios trêmulos... Pureza no olhar, maldade nos olhos... Meu menino lindo... O final vazio com a baia coberta de sol e o nosso abraço e minha cruz em sua testa... Fique com Deus e seus bons pensamentos...

...Ele é um calango do cerrado. Do quente seco, lá onde ele veio. Ele tem olhar curioso de criança pega de surpresa. Pequenino e forte. Forte e franzino. Seu jeito puro me encanta. Seu suor prestativo me atrai. Sua generosidade é grande, imensa. Quase sem sentido. Seu jeito tem cheiro de mato e tabaco. Cheiro de tranqüilidade... De descansar sereno na sombra... Talvez quem sabe? Seu hesitar me chama a atenção. E sei que eu o chamo a atenção também. Eu o atraio com meu ar doce e minha vontade de ouvir... O que será...

...Ele é o malando JB! Sua voz grave me lembra gafieira e samba. Seu jeito suburbano de quem no fundo não se importa tanto, seu discurso e suas palavras infinitas, sua malemolência em ser, seu tsc tsc tsc tsc... Que tudo é quebrado por seu sorriso bobo de criança alegre. Seu abraço, contatos e olhar sacana de leve, bem de leve... Sua “levada na maciota”. Sua dança ajuntada corpo com corpo. Seu jeitão sutil de “você quem sabe”. Sua sensibilidade traduzida em versos, em beijos, em seu refinamento ainda bruto...

Ele...

Ele é negro e grandioso. Tem um olhar malicioso, porém de voz tão suave de quem sabe o que quer. Suas tiradas sacanas, sua sensibilidade pueril, sua esperança melancólica, suas ainda inseguranças juvenis... Ele está lendo meu texto e agora sorri porque se reconhece nele... Sua delicadeza em me dizer verdades, sua delicadeza em pontuar palavras, seu corpo quente em me instigar, sua brisa leve a me levar pra longe... Uma esfinge que só observa meus passos, assim calmo, assim cauteloso... Ele...

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