"Porque eu não sou as coisas e me revolto. Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas e enérgicas, comprimidas há tanto tempo, perderam o sentido, apenas querem explodir"

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Manuscrito achado num caderno

Para todos nós, a vida é um privilégio. Seja como for, o ar entra e sai de nossos pulmões nos transmite algo que tantos já tiveram, e que muitos ainda irão ter. Só que a hora é nossa agora. Somos nós os donos provisórios da história. Pois tudo passa. Tudo vai passar, até mesmo nossas conquistas mais sinceras. Somos pó adiado. Já somos mortos.

E somos a eternidade, o eterno presente que se soma à hora dos dias. O tudo e o nada.



Nessas linhas que te escrevo, tento pensar em mim mesma. Como alguém que se soma à soma dos dias de algum modo. Inconstante. Não mais tão jovem, não mais tão sã. Ou não mais tão equivocada? Saber a verdade... Algo que se mostra cada vez menos claro. De contornos cada vez menos delimitados. Mais fluida, entre os dedos da mão.

Ironia, não? Cada vez mais viva, cada vez menos iluminada... O confuso começa a se impor. Penso se ele é o comandante das coisas. Fidelidade à vida como, se o que eu tenho é uma mistura estranha e amorfa chamada consciência das coisas?

Transição. Dizem que é assim que acontece. Um momento e se abre um vão na antes banal disposição da vida. Um portal para outra dimensão? Um passo em falso para o abismo? A explicação das coisas? A eternidade? A infinita espera de quem não sabe o que esperar. O silêncio que precede algo. Nem que seja porra nenhuma. As paredes a dizer, a desdizer algo ainda incompreensível.

(Caminho, porque sei que não posso parar. Por hora, a única certeza. Não sei se vã, mas certa. Espero a luz do túnel, espero meus dedos a criar a luz.).

Um comentário:

Artur César disse...

Fascinante, seus escritos são todos ótimos!
Prazer em te reler!