"Porque eu não sou as coisas e me revolto. Tenho palavras em mim buscando canal, são roucas e duras, irritadas e enérgicas, comprimidas há tanto tempo, perderam o sentido, apenas querem explodir"

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Admirável...

Um burguês pode adquirir méritos e desenvolver seu espírito a não mais poder, mas sua personalidade se perde, apresente-se ele como quiser (...) Não lhe cabe perguntar: 'Que es tu?' e sim Que tens tu? Que juízo, que conhecimento, que aptidão, que fortuna?' (...) ele deve desenvolver suas diversas faculdades para torna-se útil, e já se presume que não há em sua natureza nenhuma harmonia, nem poderia haver, porque ele, para se fazer útil de um determinado modo, deve descuidar de todo o resto.

Goethe


Trabalho em um dos maiores cursos de línguas do país como professora de espanhol. Enfrento cobranças que não correspondem comigo mesma. Mas continuo por conta de um intuito instintivo, da manutenção de um emprego que tantos sonham, mas que poucos conseguem.

Agradeço a primeira oportunidade, a primeira assinatura da carteira. Também o aprendizado das aulas. Não muito mais do que isso. Porque se algo foi reponsável pelo meu endurecimento, pela minha desesperança, foram eles sem dúvida. Sinto saudades do tempo em que muitas coisas eram possíveis. Hoje elas são só imagináveis. Ter que conviver com a hipocrisia diária, sentir-se parte de uma engrenagem que valoriza mais a quantidade que a qualidade, saber-se injustiçado, abrigar-se dos últimos sonhos como válvula de escape, sentir, imaginar, prever, ter e não ter razão nesse meio: pois sou somente uma "técnica de ensino".

Trabalho por horas-aula, não recebo por enforcamentos de feriados, não recebo passagens quando substituo, não tenho escolha muitas vezes. Andar por aqueles corredores me faz sentir-me vigiada Sufocada numa complexa rede que calcula friamente todos os meus passos, e todos os meus erros. E isso não é pessoal. Vejo colegas já cansados, desmotivados, presos nessa máquina que despersonaliza a todos, que como no texto de Goethe, faz com que sejamos úteis o bastante para não sermos nada. Não interessa o que somos, o esforço que fazemos, mas os resultados pífios que obtemos. Mesmo à custa daquilo que não é certo. Mesmo à custa de alunos que passam sem poder, que se rematriculam nessa corrida insana e irracional.

Sou marxista. Não de ações, pois preciso pagar minhas contas. Sou marxista de idéias. E minhas idéias entram em choque com o real. Entrelaço-me sem querer. Visto a camisa de um mundo que não é meu. De uma realidade que vai de encontro aos meus valores. À minha vida desde então.

Saber-se assim e ainda amar aqueles que movem essa engrenagem. Meus alunos, minhas razões de vida. É somente assim que continuo. Que enfrento o mundo com suas mais superáveis previsões. Com seus mais loucos anseios. Anseios que nunca são meus de verdade. Mas repito que preciso pagar minhas contas e meus sonhos. Admirável mundo novo: já morto antes de crescer...

E sinto saudades de tudo.

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